Capoeira e Inclusão Social

Setembro 3, 2007

Capoeira e Inclusão: a razão de ser

Arquivado em: Inclusão — Fabiano Portela Schmidt @ 12:12 am

Faz algum tempo que eu jogo capoeira. Bom se for contar, realmente já vão aí uns 5 anos de idas e vindas. E já faz 4 anos de faculdade. E o que tem a vê o focinho com a tomada? Tudo meu amigo. Não o focinho, mas a capoeira e a faculdade. Quando entrei na facu, deixei de jogar por um tempo. Muitos trabalhos, estágios, provas. Depois de aprender um pouco sobre educação comecei a olhar a capoeira com outros olhos. Quatro anos me fizeram diferente. Como o som da berimba que no começo é agudo e depois fica macio, melancólico, melhor na ladainha da Angola, também fui transformado com o tempo.

No começo eu via a capoeira como um movimento que precisava de flexibilidade, ritmo e força (e haja força viu!). Com o passar do tempo, vi que a capoeira não era só um jeito de mexer com o corpo, mas uma forma de valorizar as diferenças culturais envolvidas pelas pessoas que a jogavam.

Por falar em diferentes culturas, alguém saberia me dizer qual lugar é melhor do que a escola pra se ter contato com a cultura? Na escola a cultura tem um lugar de destaque. Há cultura nos diferentes livros, nos diferentes professores, nos diferentes alunos. É lá que há um resgate das nossas raízes, onde o que aprendemos fora da escola também é valorizado e onde nossas diferenças são reconhecidas. É reconhecendo o direto a tudo que faz do ser humano diferente e especial que nossas escolas tornam-se verdadeiramente inclusivas.

Mas as escolas são realmente assim? Nossas escolas estão entupidas de formalidades, papéis e burocracias. Chafurdam na vala do preconceito, discriminação e exclusão. Marcadas pela evasão, elas fracassam quando abandonam milhares de brasileiros, sejam eles crianças ou adultos, deixando de reconhecer e valorizar as diferenças, sejam elas quais forem. A escola acaba estabelecendo categorias de alunos: deficientes, carentes, comportados, inteligentes, hiperativos, agressivos e outros mais. É por meio dessa classificação que se perpetuam as injustiças na escola.

Nossa Constituição Federal garante o direto da Educação para todos, mas isso somente será uma verdade nas nossas escolas quando elas se especializarem em todos os alunos, e não apenas em alguns. Não é esquecendo que as diferenças existem que vamos mudar essa situação. É preciso ter escolas em que todos reconheçam as diferenças e necessidades.

A cultura popular, da qual a capoeira faz parte, nunca foi valorizada na educação formal. Sempre foi retratada de forma folclorizada, abordada de forma superficial e caricaturada.

A escola é o espaço de práticas como a capoeira como meio para a construção de novos conhecimentos. É um lugar onde a cooperação substitui a competição, onde as diferenças conversam entre si e encontram uma maneira de desenvolver ações inclusivas, que atraiam os alunos.

Para que ações inclusivas espalhadas por nosso país possam ser conhecidas, esse é nosso espaço. Aqui vamos trocar experiências com as pessoas que estão transformando nossas escolas. Vamos lutar contra a perversidade da exclusão.

“Esse texto foi escrito após minha decisão de entender a capoeira como uma ação inclusiva que permite a valorização de formas de saberes não-formais. A leitura do livro de Maria Teresa Eglér Mantoan – Inclusão escolar: O que é? Por quê? Como fazer? – foi fundamental para as minhas afirmações atuais.

Um professor de Harvad – Robert Barth – descreve assim o valor da diversidade:

Eu preferiria que meus filhos freqüentassem uma escola em que as diferenças fossem observadas, valorizadas e celebradas como coisas boas, como oportunidades para a aprendizagem. A pergunta com que tantos educadores estão preocupados é: “Quais são os limites da diversidade além dos quais o comportamento é aceitável?”… Mas a pergunta que eu gostaria de ver formulada com mais freqüência é: “Como podemos fazer um uso consciente e deliberado das diferenças de classe social, gênero, idade, capacidade, raça e interesse como recursos para a aprendizagem?”… As diferenças encerram grandes oportunidades para a aprendizagem. Elas oferecem um recurso livre, abundante e renovável. Eu gostaria de ver nossa compulsão para eliminar as diferenças substituída por um enfoque igualmente insistente em se fazer uso dessas diferenças para melhorar as escolas. O que é importante sobre as pessoas – e sobre as escolas – é o que é diferente, não o que é igual (Barth, Robert. A personal vision of a good school. In Stainback, Susan e Willian. Inclusão: Um guia para educadores. Porto Alegre: Artmed, 1999. 451 p).

Setembro 2, 2007

Amanhã tem prova… que medo!!!

Arquivado em: Avaliação — Fabiano Portela Schmidt @ 10:09 pm

Se alguém disser que não fica com aquele friozinho na barriga quando fala que tem prova no dia seguinte, é realmente um belo de um mentiroso. E o pior que prova não é só na escola que tem. Tem também em entrevista pra emprego, quando vamos encontrar com alguém que conhecemos só no virtual, quando batemos papo com amigos. É pra tudo na vida tem prova, ou melhor avaliação. A todo momento somos avaliados.

Quer ver um exemplo onde a avaliação tá sempre presente? Olha para o seu trabalho. Veja meu trampo como é: eu trabalho com vendas, lá eu seleciono as tarefas que tem que ser feitas com urgência, o que vai trazer dinheiro mais rápido. O que é essencial primeiro, secundário depois. Os melhores clientes para visitar, as principais cidades para viajar, ou seja, as características que tornam essas ações importantes devem ser selecionadas com cuidado.

Lá eu também tenho que diagnosticar o que causou uma baixa nas vendas do mês. Bom eu sempre acabo culpando alguma coisa pelas baixas, ou o dólar, ou o mercado, ou os clientes. Pareço mais um médico achando problemas para poder tratar, mas não são soluções rápidas que resolvem as coisas.

Uma das coisas que eu mais gosto de fazer é antecipar, de fazer prevenções, de predizer o que vai acontecer no futuro. Não é coisa de tarólogo não. Acredito que essa seja uma das minhas funções mais importantes porque antecipando eu “olho pra frente”. Com vendas é assim, não se trata de tentar controlar o que não se pode, mas de cuidar antes para não ser surpreendido por coisas que poderiam ser previstas.

Sabe uma das coisas que acho show fazer? Orientar. Quando orientamos alguém, na verdade estamos valorizando aquela pessoa. É agir para que alguém aprenda a fazer as coisas certas. Esse é um papel duplo como quando vemos gêmeos em novelas e sabemos que é uma pessoa só fazendo as duas personagens. Nesse momento sou o responsável, o mediador pela relação entre o conhecimento e a pessoa que aprende; sou também aquele que intervém usando recursos para que a aprendizagem aconteça.

Para avaliar usando essas formas, eu sou certificado pela minha empresa. Recebo constantemente uma avaliação externa, seja ela do meu chefe ou dos meus clientes e funcinários. Isso pode parecer uma forma de fiscalizar, de se intrometer, mas não é. Isso me mostra como estou, me ajudando a comparar e observar minhas ações.

A avaliação é uma forma de regular, ou seja, permitir que ela seja formativa, continuada. Algo que possibilite corrigir o que está acontecendo durante o processo das vendas, no meu caso. Dando-se durante o processo, ela diminui os riscos de surpresas desagradáveis e ajuda a rever as metas para o mês seguinte. Ela dá esperança porque permite intervir para que os nosos objetivos sejam alcançados.

Todos esse verbos sublinhados são funções da avaliação: selecionar, diagnosticar, antecipar, orientar, certificar e regular(retiradas do texto “Funções da Avaliação Hoje”, de Lino de Macedo. Ensaios Pedagógicos: Como Construtir uma Escola para Todos?). A avaliação que dá aquela dor de barriga, o medo de errar é a que chamamos de somativa (e não é porque é feita só em prova de Matemática). É aquela avaliação (prova mesmo) que só vê o que a gente aprendeu; só quer ver os nossos resultados. Esse é um grande problema de nossas escolas, uma verdadeiro mal enraizado, muitas vezes em uma roupinha novinha e bonitinha, mas que não passa de velhas ações tradicinais.

O problema é que muitos professores não se importam com o que o aluno aprendeu, mas com o que ele deixou de aprender. Dessa forma nossas escolas se tornam verdadeiros pesadelos para crianças, adolescentes e adultos. A escola que deveria ser um lugar para todos, acaba fugindo de sua vocação principal, se transformando num lugar de poucos. Os alunos que repetem de ano ficam marcados pelos colegas, professores, pais e até por eles mesmos. Essas é uma das várias faces da terrível exclusão.

Eu sei pouco a respeito de avaliação. Sei o que vivi na pele, das dores de barriga que eu tive, dos brancos, do que meus amigos contam. De uns tempos pra cá tenho aprendido coisas novas sobre a avaliação formativa, aquela que comentei mais acima, que é feita durante o processo. Pra falar um pouquinho mais (ops! acho que falei a bessa) sobre avaliação formativa, quero convidá-los a assistirem uma entrevista dada por uma amiga. Ela fala um pouco de como fazer a aprendizagem andar de mãos dadas com a avaliação e sobre algo muito legal que é o portfólio. Vamos lá aprender com a entrevista de Dinéia Hypolitto!

Agosto 31, 2007

Qual o teu RG?

Arquivado em: Capoeira — Fabiano Portela Schmidt @ 3:20 am

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Quando alguem pergunta qual o teu RG, todo mundo já saber a resposta. Bom tem gente que não decora de jeito nenhum, mas aí a história é outra. Mas não há quem não saiba o que é o RG. Tive as moral de ver no goolge (não o acadêmico) pra ver o que é RG (aliás, amigos, depois que inventaram o goolge, fala sério né? tudo se acha lá). RG ou Registro Geral, ou Cédula de Identidade, é o documento nacional de identificação civil. Em outro link, diz que é um instrumento oficial que tem a finalidade de provar a identidade de uma pessoa. Cara muito xique isso. E quando o assunto é identidade a coisa esquenta. Nos últimos anos uma discussão tem devastado nossa sociedade (e olha que isso não é nada novo). Qual a identidade do povo brasileiro? Qual a nossa raça? Quando eu era pequeno, aprendi na escola que o povo brasileiro era formado pelo branco, pelo negro e pelo índio (coitados dos meus amiguinhos japas ou de mim mesmo que até aquela época não havia definição para minha cor – meu RG tá cutis branca, mas eu não sei muito bem disso não). Aprendi que da mistura dessas três raças é que a identidade do povo brasileiro foi formada. E acabou. Hoje as coisas mudaram, já não se fala em três raças; pesquisas indicam que a quantidade de genes do povo brasileiro é tão distanta, que um branco pode ser mais negro que um negro. Cara isso é muito loko. Mas e a nossa identidade cultural, nosso RG? Muito comenta-se hoje em herança dos povos, o branco da minha época virou elemento europeu, o negro virou africano (?) e o índio continua índio. Mas não se fala mais que dos africanos herdamos palavras e do índio temos o nome de ruas e bairros. A cultura desses povos, juntos com os orientais (da Arábia ao Japão), judeus, latino americanos formaram e continuam a mudar constantemente nosso povo. Um dos elementos de formação cultural mais expressivo do povo brasileiro é a Capoeira.

O movimento da Capoeira representa 500 anos de tradição, um verdadeira patrimônio cultural negro, instrumento de um povo que lutou pelo principal valor da humanidade: a liberdade.

As origens da capoeira estão ligadas a formação da nação brasileira. O batuque, a reza e o canto eram os meios encontrados para aliviar a asfixia da escravidão. No som dos atabaques continuava vivo o culto aos orixás e danças de onde nasceu a capoeira. A forma de resistência aos opressores era por meio da prática da arte, transmissão de cultura e melhora da auto-estima do escravo.

A capoeira é essa mistura de luta, dança, arte marcial, cultura popular, música e brincadeira. É uma valiosa contribuição para o nosso RG cultural; é parte de nossa história e lembraça das lutas que marcaram o povo brasileiro. É uma das mais significativas contribuições dos africanos, negros, escravos e seus descendentes para a formação da nossa identidade.

Agosto 29, 2007

Mestre Bimba e Mestre Pastinha

Arquivado em: Capoeira — Fabiano Portela Schmidt @ 8:07 pm

Qual o mestre mais conhecido de todos? Qual a primeira coisa que todo calouro aprende em qualquer lugar do mundo em que se jogue a Capoeira Regional?

Manuel dos Reis Machado, esse era o seu nome. Mestre Bimba foi o responsável por colocar na Capoeira movimentos de artes marciais e desenvolver um treinamento como o que conhecemos hoje em dia.

Bimba começou a jogar Capoeira com 12 anos e jogou por 10 a Capoeira de Angola. Naquela época a Capoeira era proibida e considerada um crime.

Em 1932, Mestre Bimba fundou, com o apoio da Secretaria da Educação do Estado da Bahia, a primeira escola de Capoeira do Brasil, em Salvador.

A Capoeira Regional apareceu quando Bimba percebeu que a Angola perdia espaço para as lutas estrangeiras (karatê, judô, kung-fu, etc). Bimba procurou modernizar a Capoeira, sem perder suas tradições. Certa vez em que o mestre se encontrou com o então presidente Getúlio Vargas, ele disse: “A Capoeira é a única luta verdadeiramente nacional”.

Desenvolveu novos golpes para ela se tornar mais competitiva e tirou parte da ritualidade presente nas Rodas de Angola.

É crédito de Bimba hoje o berimbau ser o instrumento mais famoso nas rodas, já que antes era comum o uso da viola.

Bimba sempre afirmou que o maior diferencial da Capoeira Regional era sua seqüência de ensino, onde além de passar movimentos básicos para o iniciante, também havia parceria e autoconfiança.

Em 1946 foi feita a primeira apresentação pública de Capoeira. Depois da experiência ter dado certo, Bimba começou a fazer exibições com dia e hora marcada. Algo que era antes impossível para qualquer capoeirista, agora era realidade: ganhar dinheiro de forma honesta com sua arte.

Mestre Bimba é responsável pela Capoeira Regional ser jogada hoje em mais de 150 países.

Do outro lado da capoeira, Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha) pregava a tradição, o jogo matreiro, de malícia, estilo que passou a ser conhecido como Angola.

Pastinha é conhecido como o Mestre da Cultura Africana. Ele era um pensador da Capoeira. Seu estilo teve seguidores por todo o Brasil. Para ele era importante o trabalho físico e mental para que o talento e a criatividade crescessem.

Fundou a primeira escola de Capoeira de Angola, o “Centro Esportivo de Capoeira Angola”, no Pelourinho, Bahia.

Durante décadas se dedicou ao ensino da Capoeira e mesmo completamente cego não deixava seus discípulos.

Graças às diferenças entre esses dois grandes mestres, a Capoeira deixou de ser marginalizada e se espalhou da Bahia para o mundo.

Chega Mais!

Arquivado em: Uncategorized — Fabiano Portela Schmidt @ 7:24 pm
No mar, no mar, no mar
No mar eu fui pescar
No mar, no mar, no mar
Minha sereia
É sereia
Que cantiga bonita essa! É uma das várias versões de uma peça de teatro do nosso folclore. Sempre quando temos alguma apresentação importante, nosso mestre Bahia apresenta a Puxada de Rede. Eu gosto demais disso.
Eu fiquei algum tempo fora de escrever no meu blog. É como se eu também tivesse ido pescar lá longe no mar. Foi uma longa viagem de meses por marés altas, ondas bravas e mar arredio. Uma verdadeira tempestade. Mas quem é que não sabe que depois de uma tempestade sempre vem um céu limpo e claro.
De volta da viagem pelo mar, trouxe algums novidades para nosso blog. Algumas idéias se desanuviaram. Muita coisa boa vem por aí. Vamos falar mais da capoeira, da onde ela vem, o que ela é, pra que ela serve, quem tá jogando por aí. Vamos fazer muito axé.
Também vamos trocar experiências e conhecer amigos que tem encontrado na capoeira um meio para ajudar crianças e adultos pelo nosso Brasil e quem sabe pelo mundo. Vamos falar um pouco mais sobre inclusão.
Outras duas conversas que vão estar conosco agora é a comunicação e a avaliação. E por que falar disso? Vamos falar de comunicação porque afinal, o que estamos fazendo aqui senão nos comunicando? E avaliação porque eu acredito que essas é das formas mais doloridas de excluir as pessoas.
Como vimos muito assunto bom vai rolar por aqui. Espero que o tempo distante tenha valido a pena.
Salve e muito axé amigos!

Março 29, 2007

SALVE SALVE

Arquivado em: Uncategorized — Fabiano Portela Schmidt @ 5:37 pm

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Salve Salve a Capoeira

Salve Deus Nosso Senhor

Salve, Salve Todos os Mestres

De Aluno a Professor…

Assim começa essa ladainha que acho que muitos sabem cantar. É uma saudação. Saudação aos alunos e professores.

Essa é a idéia desse blog, uma saudação a todos os amigos, mestres, alunos e professores.

Um espaço que vai além do movimento dos dedos em digitar. É um lugar onde o privilégio é da comunicação.

O título já fala muito do nosso principal assunto, a capoeira. Mas ela não reina sozinha aqui. Junto com a capoeira vamos falar sobre blogs, sobre comunicação, sobre inclusão e nossas experiências.

É por aqui que nossa conversa começa. Seja Bem Vindo! Salve.

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