Faz algum tempo que eu jogo capoeira. Bom se for contar, realmente já vão aí uns 5 anos de idas e vindas. E já faz 4 anos de faculdade. E o que tem a vê o focinho com a tomada? Tudo meu amigo. Não o focinho, mas a capoeira e a faculdade. Quando entrei na facu, deixei de jogar por um tempo. Muitos trabalhos, estágios, provas. Depois de aprender um pouco sobre educação comecei a olhar a capoeira com outros olhos. Quatro anos me fizeram diferente. Como o som da berimba que no começo é agudo e depois fica macio, melancólico, melhor na ladainha da Angola, também fui transformado com o tempo.
No começo eu via a capoeira como um movimento que precisava de flexibilidade, ritmo e força (e haja força viu!). Com o passar do tempo, vi que a capoeira não era só um jeito de mexer com o corpo, mas uma forma de valorizar as diferenças culturais envolvidas pelas pessoas que a jogavam.
Por falar em diferentes culturas, alguém saberia me dizer qual lugar é melhor do que a escola pra se ter contato com a cultura? Na escola a cultura tem um lugar de destaque. Há cultura nos diferentes livros, nos diferentes professores, nos diferentes alunos. É lá que há um resgate das nossas raízes, onde o que aprendemos fora da escola também é valorizado e onde nossas diferenças são reconhecidas. É reconhecendo o direto a tudo que faz do ser humano diferente e especial que nossas escolas tornam-se verdadeiramente inclusivas.
Mas as escolas são realmente assim? Nossas escolas estão entupidas de formalidades, papéis e burocracias. Chafurdam na vala do preconceito, discriminação e exclusão. Marcadas pela evasão, elas fracassam quando abandonam milhares de brasileiros, sejam eles crianças ou adultos, deixando de reconhecer e valorizar as diferenças, sejam elas quais forem. A escola acaba estabelecendo categorias de alunos: deficientes, carentes, comportados, inteligentes, hiperativos, agressivos e outros mais. É por meio dessa classificação que se perpetuam as injustiças na escola.
Nossa Constituição Federal garante o direto da Educação para todos, mas isso somente será uma verdade nas nossas escolas quando elas se especializarem em todos os alunos, e não apenas em alguns. Não é esquecendo que as diferenças existem que vamos mudar essa situação. É preciso ter escolas em que todos reconheçam as diferenças e necessidades.
A cultura popular, da qual a capoeira faz parte, nunca foi valorizada na educação formal. Sempre foi retratada de forma folclorizada, abordada de forma superficial e caricaturada.
A escola é o espaço de práticas como a capoeira como meio para a construção de novos conhecimentos. É um lugar onde a cooperação substitui a competição, onde as diferenças conversam entre si e encontram uma maneira de desenvolver ações inclusivas, que atraiam os alunos.
Para que ações inclusivas espalhadas por nosso país possam ser conhecidas, esse é nosso espaço. Aqui vamos trocar experiências com as pessoas que estão transformando nossas escolas. Vamos lutar contra a perversidade da exclusão.
“Esse texto foi escrito após minha decisão de entender a capoeira como uma ação inclusiva que permite a valorização de formas de saberes não-formais. A leitura do livro de Maria Teresa Eglér Mantoan – Inclusão escolar: O que é? Por quê? Como fazer? – foi fundamental para as minhas afirmações atuais.
Um professor de Harvad – Robert Barth – descreve assim o valor da diversidade:
Eu preferiria que meus filhos freqüentassem uma escola em que as diferenças fossem observadas, valorizadas e celebradas como coisas boas, como oportunidades para a aprendizagem. A pergunta com que tantos educadores estão preocupados é: “Quais são os limites da diversidade além dos quais o comportamento é aceitável?”… Mas a pergunta que eu gostaria de ver formulada com mais freqüência é: “Como podemos fazer um uso consciente e deliberado das diferenças de classe social, gênero, idade, capacidade, raça e interesse como recursos para a aprendizagem?”… As diferenças encerram grandes oportunidades para a aprendizagem. Elas oferecem um recurso livre, abundante e renovável. Eu gostaria de ver nossa compulsão para eliminar as diferenças substituída por um enfoque igualmente insistente em se fazer uso dessas diferenças para melhorar as escolas. O que é importante sobre as pessoas – e sobre as escolas – é o que é diferente, não o que é igual (Barth, Robert. A personal vision of a good school. In Stainback, Susan e Willian. Inclusão: Um guia para educadores. Porto Alegre: Artmed, 1999. 451 p).