Capoeira e Inclusão Social

dezembro 10, 2010

A mosca do cocô do cavalo do bandido

Filed under: Uncategorized — Fabiano Portela Schmidt @ 12:20 am

Alguém já saiu de uma aula com a sensação horrível de que aquilo foi uma droga? Pois é, foi assim que eu me senti hoje. Parece que nunca tão poucas crianças bagunçaram tanto. Hoje tivemos uma assistência baixa; somente 7 alunos, sendo que dois tiveram que refletir sobre atitudes durante a aula e outra que tava com cara de bunda. Em resumo, aula para 4 alunos. Mas o que aconteceu? Sabe que nem eu sei direito. A aula de hoje faz parte de uma das aulas especiais que venho comentando. Um dos alunos, no caso de hoje o Gabriel, cordão amarelo ficou responsável por dar aula. Parece que eu me esqueci que não nascemos professores… a gente aprende como tudo na vida. Há pessoas que tem talento nato para a coisa, mas isso não as qualifica ou desqualifica. Tem gente que parece que nasceu para dar aula, mas que gosta de vendas e trabalha com isso, tem gente que parece que nasceu para trabalhar com legumes, sem tato nenhum com pessoas, mas que aprende a dar aula… caraca to filosofando de novo? Cuidado ao ler o resto do post… quando filosofo minha tendência a piadinhas sem graça se acentua.. onde eu tava? Ah… no Gabriel dando aula. O Gabriel foi minha inspiração para o ajudante da aula, mas obviamente isso não qualifica ninguém a dar aula. Tudo começou com a quantidade de alunos novos. Aulas de capoeira não são como uma sala de aula no sentido da logística. Em sala de aula temos alunos de 4ª série, por exemplo. Todos têm o mesmo nível, não é verdade? Claro que não, nem a mesma idade eles têm. Mas procura-se equilibrar as idades, nível de conhecimento, etc. em aulas de capoeira há desde alunos que começaram naquele dia até alunos que treinam a 2 ou 3 anos. Como um professor atende a essa necessidade sozinho? Não atende, ele precisa de ajuda. Só que eu descobri isso dando murro em ponta de faça. Até que um dia, o Gabriel, de livre e espontânea vontade começou a ajudar um aluno ao lado dele de 5 anos de idade (o Gabriel hoje tem 7, começou com 5 anos) a fazer alguns movimentos. Parecia que eu tinha descoberto a América. Desse dia em diante, passamos a ter ajudantes de aula. Conforme os alunos foram, sob a minha ótica, evoluindo, decidi que de vez em quando, dentro das aulas especiais, alunos dariam “aulas”. Essas aulas são básicas com aquecimento, alongamento e movimentos simples de verde. A primeira experiência com a Larissa e o Matheus foi ótima. Deram uma aula vibrante e empolgante. Decidi deixar o Gabriel experimentar dessa vez, só que antes de jogar o pobre menino no fogo, eu deveria ter passado orientações, ensinado a ser um professor por um dia. Ele foi ótimo; seguramente há coisas que podem ser melhoradas como aumentar a altura da voz de comando, organização, etc., mas de modo geral foi boa. Mas então? O que aconteceu que foi ruim? Eu não estava no espírito da aula. Sabe aquele dia que você se sente a mosca do cocô do cavalo do bandido? Esse sou eu hoje. É impressionante como isso contagia os alunos. Eu não conseguia ajudar o Gabriel, dei bronca em quem não devia, gritei mais do que podia e até acabei acertando um golpe na pobre da Larissa (obviamente não intencional, dentro do movimento técnico de um esporte que é de semi-contato, blá, blá, blá, mas nada disso importa, acertou). As coisas realmente não foram bem; o comportamento inadequado de três alunos os levou a ficarem separados, depois sentados (imagina você assistir uma aula de movimento, sem poder participar? É olhar com os olhos e lamber com a testa) e por fim, isolados. Levaram uma bronca do mestre Bahia. Cara que mals… para terminar a noite com chave de ouro, tive que ouvir de uma das alunas que eu tenho preferência por alguns alunos. Tenho? Será? Só a dúvida já deve indicar que sim. Tapão na cara isso foi. E agora o que fazer? Garanto para vocês que me senti um bos… boçal hoje. Isso deve ser ruim para qualquer professor. Sair da aula sentindo que não cumpriu sua missão. Que deixou seus alunos na mão, que poderia ter dado mais de si, que podia ter sido melhor. Sabe hoje eu esqueci de uma lição que eu tinha aprendido. Sabe galera sempre quis dar aula, quem me conhece sabe disso. Para mim, dar aula para as crianças do projeto da capoeira Lendas do Abaeté é uma honra tremenda, além de uma realização pessoal (ah lembrei agora, a mesma aluna que disse que tenho preferências me chamou de gordo… pô to fazendo o máximo para emagrecer… você sabe o que significa para um gordo ser chamado de gordo? Não? Porque tu deve ser magro), enfim eu gosto de estar lá. Não é obrigação, é paixão. Para mim cada aula é única, especial, como se fosse à última, essa é minha lição máxima. Hoje eu tratei a aula como só mais uma… foi isso que deu errado. Hoje, como todo ser humano eu perdi o pique, me desgastei e me cansei. Que culpa os alunos tinham? Nenhuma! Então que seja a última vez. Há um provérbio japonês que diz: se cair sete vezes, levante-se oito. No dia que você sair de uma aula se sentindo um mer… mercador errante (olha a piadinha sem graça me tomando), lembre-se que:

- ninguém tem culpa de você se sentir assim.

- essa pode ser sua última aula, que seja a melhor.

- se cair, levante de novo.

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